Crtica, Jos de Alencar: O Guarani, 1887

Jos de Alencar: O Guarani

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado
como prefcio para uma edio dO Guarani,

da
qual saram apenas os primeiros fascculos, em 1887.

Um dia,
respondendo a Alencar em carta pblica, dizia-lhe eu, com referncia a um
tpico da sua,  que ele tinha por si, contra a conspirao do silncio, a
conspirao da posteridade. Era fcil antev-lo: O Guarani e Iracema
estavam publicados; muitos outros livros davam ao nosso autor o primeiro
lugar na literatura brasileira. H dez anos apenas que morreu; ei-lo que
renasce para as edies monumentais, com a primeira daquelas obras, to fresca
e to nova, como quando viu a luz, h trinta anos, nas colunas do Dirio do
Rio.  a conspirao que comea.

O
Guarani foi
a sua grande estria. Os primeiros ensaios f-los no Correio
Mercantil, em 1853, onde substituiu Francisco Otaviano na crnica. Curto
era o espao, pouca a matria; mas a imaginao de Alencar supria ou
alargava as coisas, e com o seu p de ouro borrifava as vulgaridades da semana.
A vida fluminense era ento outra, mais concentrada, menos ruidosa. O mundo
ainda no nos falava todos os dias pelo telgrafo, nem a Europa nos mandava
duas e trs vezes por semana, s braadas, os seus jornais. A chcara de 1853
no estava, como a de hoje, contgua  Rua do Ouvidor por muitas linhas de tramways,
mas em arrabaldes verdadeiramente remotos, ligados ao centro por tardos
nibus e carruagens particulares ou pblicas.

Naturalmente,
a nossa principal rua era muito menos percorrida. Poucos eram os teatros, casas
fechadas, onde os espectadores iam tranqilamente assistir a dramas e comdias,
que perderam o vio com o tempo. A animao da cidade era menor e de diferente
carter. A de hoje  o fruto natural do progresso dos tempos e da populao;
mas  claro que nem o progresso nem a vida so dons gratuitos. A facilidade e a
celeridade do movimento desenvolvem a curiosidade mltipla e de curto flego e muitas
coisas perderam o interesse cordial e duradouro, ao passo que vieram outras
novas e inumerveis. A fantasia de Alencar, porm, fazia render a matria que
tinha, e no tardou que se visse no jovem estreante um mestre futuro, como
Otaviano, que lhe entregara a pena.

Efetivamente,
da a trs anos aparecia O Guarani. Entre a crnica e este
romance, medearam, alm da direo do Dirio do Rio, a famosa crtica da
Confederao dos Tamoios, e duas narrativas, Cinco Minutos e A
Viuvinha. A crtica ocupou a ateno da cidade durante longos dias, objetos
de rplicas, debates, conversaes.

Em
verdade, Alencar no vinha conquistar uma ilha deserta. Quando se aparelhava
para o combate e a produo literria, mais de um engenho vivia e dominava,
alm do prprio autor da Confederao, como Gonalves Dias, Varnhagen,
Macedo, Porto Alegre, Bernardo Guimares; e entre esses, posto que j ento
finado, aquele cujo livro acabava de revelar ao Brasil um poeta genial: lvares
de Azevedo. No importa; ele chegou, impaciente e ousado, criticou, inventou,
comps. As duas primeiras narrativas trouxeram logo a nota pessoal e nova;
foram lidas como uma revelao. Era o bater das asas do esprito, que iria
pouco depois arrojar vo at s margens do Paquequer.

Aqui
esto as margens do Paquequer; aqui vem este livro, que foi o primeiro alicerce
da reputao de romancista do nosso autor.  a obra pujante da mocidade.
Escreve-a  medida da publicao, ajustando-se a matria ao espao da folha,
condies adversas  arte, excelentes para granjear a ateno pblica. Vencer
estas condies no que elas eram opostas, e utiliz-las no que eram propcias,
foi a grande vitria de Alencar, como tinha sido a do autor d'Os Trs Mosqueteiros.

No venho
criticar O Guarani. L ficou, em pginas idas, o meu juzo sobre
ele. Quaisquer que sejam as influncias estranhas a que obedecer, este livro 
essencialmente nacional. A natureza brasileira, com as exuberncias que Burke
ope  nossa carreira de civilizao, aqui a tendes, vista por vrios aspectos;
e a sua vida interior no comeo do sculo XVII devia ser a que o autor nos
descreve, salvo o colorido literrio e os toques de imaginao, que, ainda
quando abusa, delicia. Aqui se encontrar a nota maviosa, to caracterstica do
autor, ao lado do rasgo msculo, como lho pedia o contato e o contraste da vida
selvagem e da vida civil. Desde a entrada estamos em puro e largo Romantismo. A
maneira grave e aparatosa com que D. Antnio de Mariz toma conta de suas
terras, lembra os velhos fidalgos portugueses, vistos atravs da solenidade de
Herculano; mas j depois intervm a luta do goitac com a ona, e entramos no
corao da Amrica. A imaginao d  realidade os mais opulentos atavios. Que
importa que s vezes a cubram demais? Que importam os reparos que possam fazer
na psicologia do indgena? Fica-nos neste o exemplar da dedicao, como em
Ceclia o da candura e faceirice; ao todo, uma obra em que palpita o melhor da
alma brasileira.

Outros
livros vieram depois. Veio a deliciosa Iracema; vieram as Minas de
Prata, mais vastos que ambos, superior a outros do mesmo autor, e menos
lidos que eles; vieram aqueles dois estudos de mulher,  Diva e Lucola, que
foram dos mais famosos. Nenhum produziu o mesmo efeito d' O Guarani. O
processo no era novo; a originalidade do autor estava na imaginao fecunda, 
ridente ou possante,  e na magia do estilo. Os nossos raros ensaios de
narrativa careciam, em geral, desses dois predicados, embora tivessem outros
que lhes davam justa nomeada e estima. Alencar trazia-os, com alguma coisa mais
que despertava a ateno: o poder descritivo e a arte de interessar. Curava
antes dos sentimentos gerais; fazia-o, porm, com largueza e felicidade; as
fisionomias particulares eram-lhes menos aceitas. A lngua, j numerosa, fez-se
rica pelo tempo adiante. Censurado por deturp-la,  certo que a estudava nos
grandes mestres; mas persistiu em algumas formas e construes, a ttulo de
nacionalidade.

No pude
reler este livro, sem recordar e comparar a primeira fase da vida do autor com
a secunda. 1856 e 1876 so duas almas da mesma pessoa. A primeira data  a do
perodo inicial da produo quando a alma paga o esforo, e a imaginao no
cuida mais que de florir, sem curar dos frutos nem de quem lhos apanhe. Na
segunda, estava desenganado. Descontada a vida ntima, os seus ltimos tempos
foram de misantropo. Era o que ressumbrava dos escritos e do aspecto do homem.
Lembram-me ainda algumas manhs, quando ia ach-lo nas alamedas solitrias do
Passeio Pblico, andando e meditando, e punha-me a andar com ele, e a
escutar-lhe a palavra doente, sem vibrao de esperanas, nem j de saudades.
Sentia o pior que pode sentir o orgulho de um grande engenho: a indiferena
pblica, depois da aclamao pblica. Comeara como Voltaire para acabar como Rousseau.
E baste um s cotejo. A primeira de suas comdias, Verso e Reverso, obrazinha
em dois atos, representada no antigo Ginsio, em 1857, excitou a curiosidade do
Rio de Janeiro, a literria e a elegante; era uma simples estria. Dezoito anos
depois, em 1875, foram pedir-lhe um drama, escrito desde muito, e guardado
indito. Chamava-se O Jesuta, e ajustava-se fortuitamente, pelo
ttulo, s preocupaes manico-eclesisticas da ocasio; nem creio que lho
fossem pedir por outro motivo. Pois nem o nome do autor, se faltasse outra
excitao, conseguiu encher o teatro, na primeira, e creio que nica,
representao da pea.

Esses e
outros sinais dos tempos tinham-lhe azedado a alma. O eco da quadra ruidosa
vinha contrastar com o atual silncio; no achava a fidelidade da admirao.
Acrescia a poltica, em que to rpido se elevou como caiu, e donde trouxe a
primeira gota de amargor. Quando um ministro de Estado, interpelado por ele,
retorquiu-lhe com palavras que traziam, mais ou menos, este sentido  que a
vida partidria exige a graduao dos postos e a submisso aos chefes,  usou
de uma linguagem exata e clara para toda a Cmara, mas ininteligvel para
Alencar, cujo sentimento no se acomodava s disciplinas menores dos partidos.

Entretanto,
 certo que a poltica foi uma de suas ambies, se no por si mesma, ao menos
pelo relevo que do as altas funes do Estado. A poltica tomou-o em sua nave
de ouro; f-lo polemista ardente e brilhante, e levantou-o logo ao leme do
governo. No faltava a Alencar mais que uma qualidade parlamentar,  a
eloqncia. No possua a eloqncia, antes parecia ter em si todas as
qualidades que lhe eram contrrias; mas, fez-se orador parlamentar, com
esforo, desde que viu que era preciso. Compreendera que, sem a oratria, tinha
de ficar na meia obscuridade. Se o talento da palavra  a primeira condio do
parlamento, no dizer de Macaulay,  que escreveu essa espcie de trusmo,
suponho, para acrescentar sarcasticamente que a oratria tem a vantagem de
dispensar qualquer outra faculdade, e pode muita vez cobrir a ignorncia, a
fraqueza, a temeridade e os mais graves e fatais erros,  sabemos que para o
nosso Alencar, como para os melhores, era um talento complementar, no
substitutivo. Deu com ele algumas batalhas duras contra adversrios de primeira
ordem. Mas tudo isso foi rpido. Teve os gozos intensos da poltica, no os
teve duradouros. As letras, posto que mais gratas que ela, apenas o consolaram;
j lhes no achou o sabor primitivo. Voltou a elas inteiramente, mas solitrio
e desenganado. A morte veio tom-lo depressa. Jamais me esqueceu a impresso
que recebi quando dei com o cadver de Alencar no alto da essa, prestes a ser
transferido para o cemitrio. O homem estava ligado aos anos das minhas
estrias. Tinha-lhe afeto, conhecia-o desde o tempo em que ele ria, no me
podia acostumar  idia de que a trivialidade da morte houvesse desfeito esse
artista fadado para distribuir a vida.

A
posteridade dar a este livro o lugar que definitivamente lhe competir. Nem
todos chegam intactos aos olhos dela; casos h, em que um s resume tudo o que
o escritor deixou neste mundo. Manon Lescaut, por exemplo,  a imortal
novela daquele padre que escreveu tantas outras, agora esquecidas. O autor de Iracema
e d' O Guarani pode esperar confiado. H aqui mesmo uma inconsciente
alegoria. Quando o Paraba alaga tudo, Peri, para salvar Ceclia, arranca uma
palmeira, a poder de grandes esforos. Ningum ainda esqueceu essa pgina
magnfica. A palmeira tomba. Ceclia  depositada nela. Peri murmura ao ouvido
da moa: Tu vivers, e vo ambos por ali abaixo, entre gua e cu, at
que se somem no horizonte. Ceclia  a alma do grande escritor, a rvore  a
Ptria que a leva na grande torrente dos tempos. Tu vivers!


