Crtica, J.M. de Macedo: O culto do dever, 1866

J.M. de Macedo: O culto do dever

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado originalmente
na Semana Literria, seo do Dirio do Rio de Janeiro, 16/01/1866.

O autor d'A Nebulosa e dA
Moreninha tem jus ao nosso respeito, j por seus talentos j por sua
reputao. Nem a crtica deve destinar-se a derrocar tudo quanto a mo do tempo
construiu, e assenta em bases slidas. Todavia, respeito no quer dizer
adorao estrepitosa e intolerante; o respeito neste caso  uma nobre
franqueza, que honra tanto a conscincia do crtico, como o talento do poeta; a
maior injuria que se pode fazer a um autor  ocultar-lhe a verdade, porque faz
supor que ele no teria coragem de ouvi-la. Nem todas as horas so prprias ao
trabalho das musas; h obras menos cuidadas e menos belas, entre outras mais
belas e mais cuidadas: apontar ao poeta quais elas so, e por que o so, 
servir diretamente  sua glria. Por agora s nos ocuparemos com o ltimo livro
do Sr. Dr. Macedo; aplicando aquelas mximas salutares  ligeira anlise que
vamos fazer, falaremos sem rodeios nem disfarce, procuraremos ver se o autor
atendeu a todas as regras da forma escolhida, se fez obra d'arte ou obra de
passatempo, e resumindo a nossa opinio em termos claros e precisos, teremos
dado ao autor dO Culto do Dever o culto de uma nobre considerao.

No se cuide que  fcil apreciar O
Culto do Dever. A primeira dvida que se apresenta ao esprito do leitor 
sobre quem seja o autor deste livro. O Sr. Dr. Macedo declara num prembulo que
recebeu o manuscrito das mos de um velho desconhecido, h cinco ou seis meses.
Se a palavra de um autor  sagrada, como harmoniz-la, neste caso, com o estilo
da obra? O estilo  do autor d'O Moo Loiro; no sereis vs, mas a
fisionomia  vossa; a o escritor est em luta com o homem. Nisto no fazemos
injria alguma ao Sr. Dr. Macedo; a histria literria de todos os pases est
cheia de exemplos semelhantes. A verdade, porm,  que o livro traz no rosto o
nome do Sr. Dr. Macedo, como autor do romance, e esta interpretao
parece-nos a mais aceitvel. Em todo o caso, apraz-nos ter de falar a um nome
conhecido, sobre o qual pesa a larga responsabilidade do talento.



O autor declara que a histria 
verdadeira, que  uma histria de ontem, um fato real, com personagens vivos; a
ao passa nesta corte, e comea no dia de Reis do ano passado, assim, pois, 
muito possvel que  os prprios personagens d'O Culto do Dever
estejam lendo estas linhas. Pode a crtica apreciar livremente as paixes e os
sentimentos em luta neste livro, analisar os personagens, aplaudi-los ou
conden-los, sem ferir o amor-prprio de criaturas existentes? Realidade ou
no, o livro est hoje no domnio do pblico, e naturalmente far parte das
obras completas do Sr. Dr. Macedo; o fato sobre que ele se baseia j passou ao
terreno da fico;  coisa prpria do autor. Nem podia deixar de ser assim; a
simples narrao de um fato no constitui um romance, far quando muito uma gazetilha;
 a mo do poeta que levanta os acontecimentos da vida e os transfigura com a
varinha mgica da arte. A crtica no aprecia o carter de tais ou tais
indivduos, mas sim o carter das personagens pintadas pelo poeta, e discute
menos os sentimentos das pessoas que a habilidade do escritor.

Aos que no tiverem lido O
Culto do Dever parecer excessivo este nosso escrpulo; todavia, o
escrpulo  legtimo  vista de urna circunstncia: h no romance uma cena, a
bordo do vapor Santa Maria, na qual o autor faz intervir a pessoa de Sua
Alteza o Sr. Conde dEu, companheiro de viagem de uma das personagens, cuja mo
o prncipe aperta cordialmente. No  crvel que a liberdade da fico v to
longe; e ns cremos sinceramente na realidade do fato que serve de assunto a O
Culto do Dever.

O dever  a primeira e a ltima
palavra do romance;  o seu ponto de partida,  o seu alvo; cumprir o dever, 
custa de tudo, eis a lio do livro. Estamos de acordo com o autor nos seus
intuitos morais. Como os realiza ele? sacrificando a felicidade de uma moa no
altar da ptria; uma noiva que manda o noivo para o campo da honra; o trao 
lacedemnio, a ao  antiga.

Faites votre devoir et laissez
faire aux dieux

Angelina tem uma expresso
idntica para convencer o noivo.   fora da sua palavra, imperiosa mas
serena, que Tefilo vai assentar praa de voluntrio, e parte para a guerra.
Angelina faz tudo isso por uma razo que o autor repete a cada pgina do livro;
 que ela foi educada por um pai austero e rgido; Domiciano influiu no corao
de sua filha o sentimento do dever, como pedra de toque para todas as suas
aes; o prprio Domiciano morre vtima da austeridade da sua conscincia. H
nesta simples exposio elementos dramticos; O autor tem diante de si uma tela
vasta e prpria para traar um grande quadro e preparar um drama vivo. Por que
o no fez? O autor dir que no podia alterar a realidade dos fatos; mas esta
resposta  de poeta,  de artista? Se a misso do romancista fosse copiar os
fatos, tais quais eles se do na vida, a arte era uma coisa intil; a memria
substituiria a imaginao; O Culto do Dever deitava abaixo Corina,
Adolfo, Manon Lescaut. O poeta daria a demisso e o cronista ria
a direo do Parnaso. Demais,  o autor podia, sem alterar os fatos, fazer
obra de artista, criar em vez de repetir;  isso que no encontramos n'O
Culto do Dever. Dizia acertadamente Pascal que sentia grande prazer quando
no autor de um livro, em vez de um orador, achava um homem. Debalde se procura
o homem n'O Culto do Dever; a pessoa que narra os acontecimentos daquele
romance, e que se diz testemunha dos fatos, ser escrupulosa na exposio de
todas as circunstncias, mas est longe de ter uma alma, e o leitor chega 
ltima pgina com o esprito frio e o corao indiferente.

E contudo, no faltam ao poeta
elementos para interessar; o nobre sacrifcio de uma moa que antepe o
interesse de todo ao seu prprio interesse, o corao da ptria ao seu prprio
corao, era um assunto fecundo; o poeta podia tirar da pginas deliciosas,
situaes interessantes.

Qual era o meio de mostrar a
grandeza do dever que Angelina pratica? Seguramente que no  repetindo, como
se faz no romance, a palavra dever, e lembrando a cada passo as lies
de Domiciano. A grandeza do dever, para que a situao de Angelina nos
interessasse, devia nascer da grandeza do sacrifcio, e a grandeza do
sacrifcio da grandeza do amor. Ora, o leitor no sente de modo nenhum o grande
amor de Angelina por Tefilo; depois de assistir  declarao na noite de Reis,
 confisso de Angelina a seu pai, e  partida de Tefilo, para Portugal, o
leitor  solicitado a ver o episdio da morte de Domiciano, e outros, e o amor
de Angelina, palidamente descrito nos primeiros captulos, no aparece seno na
boca do narrador; a resoluo da moa para que Tefilo v para o Sul, -lhe
inspirada sem luta alguma; a serenidade das suas palavras, longe de impor o
esprito do leitor, lana-o em grande perplexidade; Angelina afirma,  verdade,
que vai sentir muito com a separao de Tefilo; mas se o diz, no faz
senti-lo. Quando Rodrigo mata, em desforo de uma injria, o pai de Ximena, e
esta vai pedir vingana ao rei, que luta no se trava no corao da amante do
Cid! O dilema a  cruel: pedir o sangue do amante em paga do sangue do pai.
Ximena estorce-se, lamenta-se, lava-se em lgrimas; metade da sua vida matou a
outra metade, como ela mesma diz; e o leitor sente toda a grandeza da dor, toda
a nobreza do sacrifcio: Ximena  uma herona sem deixar de ser mulher.

Se trazemos este exemplo no 
pelo gosto de opor  obra do poeta brasileiro a obra de um gnio trgico; nossa
inteno  indicar, por comparao de um modelo, quais os meios de fazer sentir
ao leitor a extenso de um sacrifcio. Francamente, a Angelina da vida real, a
Angelina que talvez esteja lendo estas linhas, h de desconhecer-se na prpria
obra do poeta.

Tefilo deve sentir a mesma
estranheza quando ler o livro do Sr. Dr. Macedo. Quando, ao tratar-se em casa
de Angelina do nobre sacrifcio do Imperador e de seus augustos genros,
partindo para a guerra, a tia Plcida faz uma observao intempestiva. Tefilo
responde-lhe com duas falas inspiradas de patriotismo e decidida coragem. O ato
do cidado que no acode  voz da ptria  qualificado por ele de covarde e
mais infame. A concluso do leitor  bvia: Tefilo vai adiar o casamento, vai
partir para a guerra; nada nos autoriza a crer que ele se guie pela moral de
Talleyrand. Pois bem, acontece exatamente o contrrio. Quando mais tarde o
narrador, testemunha dos fatos, lembra-lhe o dever de ir para o Sul, Tefilo
responde com o amor de Angelina, dizendo que a honra da ptria est confiada a
milhes de filhos, e que a esperana da moa est somente nele; lembram-lhe as
suas palavras; ele responde que foi imprudente em proferi-las, dizem-lhe
que Angelina s se casar depois da guerra; ele dispe-se a ir falar  noiva, e
destruir esses escrpulos desabridos.

Tefilo vai ter com Angelina, a
noiva mostra-se inabalvel; a sua condio  que o moo v para o Sul,
prometendo esper-lo na volta da campanha. No devo, responde ela com a serena
impassibilidade do non possumus pontifcio. Todos a cercam, instam
todos; Angelina no recua um passo. Mas que faz Tefilo? Gasta trs dias em
rogativas inteis; roja-se aos ps da moa para alcanar a sano daquilo que
ele, pouco antes condenava como ato infamante. No alcanando nada, trama-se
uma conspirao: Tefilo reporta-se  vontade de sua me, que deve chegar da
fazenda; a me  prevenida a tempo; convenciona-se que ela recusara licena ao
filho para partir; segundo a opinio primitiva de Tefilo, aquilo era nada
menos que a conspirao dos covardes; o moo, porm, no se preocupa muito com
isso; rompe a conspirao; a me nega ao filho a licena de partir, o irmo e a
irm falam no mesmo sentido;  tudo vo: Angelina persiste em que o noivo deve
ir para o Sul. A figura da moa, confessemo-lo, impe aquilo pelo contraste;
ser uma grandeza mas  uma grandeza que se alenta da fraqueza dos outros. O
certo  que, no podendo alcanar outra resposta, Tefilo resolve-se a partir,
o que d lugar  cena dos bilhetes escritos, entre os dois noivos; Angelina
escreve ocultamente, uma ordem de partir, ao passo que Tefilo escreve em outro
papel, ao mesmo tempo, a sua resoluo de obedecer; os dois bilhetes so lidos
na mesma ocasio. A idia ser original, mas a cena no tem gravidade; e se foi
trazida para salvar Tefilo, o intento  intil, porque aos leitores
perspicazes, Tefilo transige com a obstinao de Angelina, no se converte.

Ora, o Tefilo da vida real
querer reconhecer-se nesta pintura? Duvidamos muito. Se o autor quisesse
pintar em Tefilo a instabilidade do carter, a contradio dos sentimentos,
nada teramos que lhe dizer: a figura era completa. Mas no; desde comeo
Tefilo  apresentado aos leitores como um moo honrado, srio, educado em boa
escola de costumes; Domiciano no se farta de elogi-lo. A inteno do autor 
visvel: mas a execuo traiu-lhe a inteno.

Dissemos acima que Tefilo partira
para Portugal, logo depois da sua declarao a Angelina; os leitores tero
curiosidade de saber o motivo dessa partida, que d lugar a uma longa cena,
idntica  da conspirao. O motivo  ir recolher uma herana deixada por um
parente de Tefilo; h o mesmo concerto unnime de rogativas; mas nem Angelina,
nem Domiciano consentem que o moo fique.  dever, responde Angelina; e devemos
dizer que a repetio desta palavra torna-se quase uma ostentao de virtude.
Parte o moo e deixa todos consternados. O que torna, porm, esta cena intil e
sobreposse,  que a aflio geral nasce de uma dificuldade que no existe. Se a
noiva est pedida, se os dois noivos se amam, se nem a me, nem o irmo do
rapaz lhe impem o dever de partir, no havia um meio simples, um recurso
forense, para remediar a situao? Um advogado no fazia as vezes do herdeiro?
Esta pergunta  to natural que durante a leitura do captulo esperamos sempre
ouvi-la da boca de um dos personagens, e contvamos que aquela soluo traria a
felicidade a todos, arrancando-os a um mal imaginrio.



Domiciano, descrito pejo autor
como o tipo do dever, seria mais bem acabado, se a sua virtude fosse mais
discreta e menos exigente. Os sacrifcios que ele pratica so realmente
dolorosos; mas essa virtude no paira numa regio elevada; amesquinha-se, dilui-se,
no captulo em que o bom do velho fala de uma violeta dada por Angelina a
Tefilo. Essa violeta, no entender de Domiciano,  um erro grave, causou-lhe
uma dor profunda; o leitor admira-se de uma virtude to minuciosa; mas a
crtica de tamanho alvoroo no pai de Angelina, no  o leitor quem a faz,  o
prprio narrador que no podendo ter-se, pergunta-lhe com uma gravidade cmica,
quantas flores no lhe deu a mulher antes de se casarem. Desde esse captulo o
interesse por Domiciano no  tamanho como devera ser; as suas belas palavras,
recusando abandonar o trabalho, apesar da certeza de que morre, impressionam,
decerto, mas o esprito est prevenido pela cena da violeta, e no se apaixona
por aquela santa dignidade.

Tais contrastes, tais omisses,
tornam os personagens d'O Culto do Dever pouco aceitveis da parte de um
apreciador consciencioso. Em geral, as personagens esto apenas esboadas; o
esprito no as retm; ao fechar o livro dissipam-se todas como sombras
impalpveis; como elas no comovem, o corao do leitor no conserva o menor
vestgio de sensao, a menor impresso de dor.



Faltariam ao poeta as tintas
necessrias para traduzir uma obra melhor? Sinceramente, no;  contestando
o merecimento d'O Culto do Dever, seria ridculo negar o talento do Sr.
Dr. Macedo. O que desejamos, sobretudo,  que os talentos provados, os talentos
reconhecidos, tenham sempre em vista o interesse da sua glria, e no se
exponham ao desastre de produzir um livro mau.

O Culto do Dever  um mau livro, como a
Nebulosa  um belo Poema. Esta ser a linguagem dos amigos do poeta, a
linguagem dos que amam deveras as boas obras, e almejam antes de tudo o
progresso da literatura nacional.

O que esses desejam sinceramente 
que o Sr. Dr. Macedo, nos lazeres que lhe deixar a poltica, escreva uma nova
obra, evocando a musa que outras vezes o inspirou; as letras ganharo com isso;
o seu nome receber novo lustre, ficando-nos o prazer de registrar nestas
mesmas colunas o esplendor da sua nova vitria.

Isto em relao ao poeta.

Pelo que diz respeito s letras, o
nosso intuito  ver cultivado, pelas musas brasileiras, o romance literrio, o
romance que rene o estudo das paixes humanas aos toques delicados e originais
da poesia,  meio nico de fazer com que uma obra de imaginao, zombando do
aoite do tempo, chegue, inaltervel e pura, aos olhos severos da posteridade.
