Crtica, Suplcio de uma uma mulher, 1865

Dois folhetins.
Suplcio de uma mulher

Texto-Fonte:

Teatro, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: W. M.
Jackson, 1938.

Publicada originalmente
no Dirio do Rio de Janeiro, 28/09 e 03/10/1865.

Histria deste drama

A propsito do Suplcio de uma mulher,
drama em 3 atos, que deve ser representado sbado no Ginsio, em benefcio de
Furtado Coelho, houve renhida discusso na imprensa francesa, sendo os escritos
mais notveis,  um prefcio de Emile de Girardin, e um folheto de Alexandre
Dumas Filho.

Quase se pode dizer que o prefcio
literrio de Emile de Girardin fez o mesmo barulho que o prefcio poltico de
Luiz Napoleo. Arcades ambo.

O prefcio pouco esclarece a questo de
fato.

Diz Emile de Girardin que, tendo escrito
um drama com o ttulo Suplcio de uma mulher, lera-o a alguns amigos no
castelo de Val, e depois ao comit do Teatro Francs. A foi o drama julgado
perigoso, e, em conseqncia disso, consentiu o autor que outrem metesse a mo
na obra.

Quem era, no no diz o redator da Presse,
mas assevera, que o colaborador, em vez de limitar-se a pequenas modificaes,
reformou de tal modo a pea, que chegou a ape-la das alturas do ideal.

Emile de Girardin conservou algumas
modificaes feitas pelo outro, que lhe pareceram felizes, mas tratou de manter
o que constitua essencialmente a sua obra.

A pea lida e aceita a 14 de Dezembro de
1864, diz Emile de Girardin,  a minha. Mas como , acrescenta ele, que o
manuscrito, que eu no admiti, foi substitudo ao manuscrito que eu tinha lido
ao comit?

Emile de Girardin no retirou ento a
pea  por escrpulo de no causar prejuzo pecunirio ao tradutor, que
consagrara trs semanas a traduzir a sua lngua para outra, que tem a vantagem
de ser concisa, mas que se parece com estilo de telegrama, quando no cai nas
tiradas de melodrama.

O redator da Presse nada mais diz
acerca da questo de fato. Faz algumas apreciaes literrias, compara os
caracteres, julga a ao, analisa o desenlace, mas essas consideraes, tanto
as dele, como as de Dumas Filho, achamos melhor suprimi-las, deixando ao
pblico fluminense o trabalho de julgar por si mesmo o drama que deve ser
representado sbado.

Vamos agora  contestao de Alexandre
Dumas Filho.

Diz ele:

Agora que todos j tm falado a respeito
dos mistrios do Suplcio de uma mulher, inclusive o Sr. de Girardin, no
prefcio que ele julgou dever e poder ligar ao volume do drama, peo licena
para dizer tambm algumas palavras; somente, previno o leitor de que as minhas
palavras sero a absoluta verdade. Para dar esclarecimentos que se tornam
necessrios, procurarei empregar a linguagem concisa e rpida, to admirada na
ltima pea do Teatro Francs, e que revelou a alguns, apesar do annimo, o
redator principal da Presse.

No ms de Novembro do ano passado,
recebi do Sr. de Girardin uma carta que conservo, porque os autgrafos do Sr.
de Girardin so daqueles que se devem guardar. Eis o contedo da carta:

Meu caro amigo, hei de ler
quarta-feira, en petit comit, e depois de jantar, o Suplcio de uma
mulher, ttulo que talvez tenha de ser mudado em Suplcio dos convivas.
Ser to audaz, isto , to meu amigo, para vir jantar e dizer-me a sua
impresso? Se achar que a mulher deve ser enterrada na pasta, h de s-lo, e na
mesma noite. Seu de todo o corao  Emile de Girardin.

O Sr. de Girardin viu-me nascer, como
ele prprio diz no seu prefcio, e perdemo-nos de ,vista h vinte anos. Eu era
dos seus amigos. Tinha orgulho em que um homem do seu merecimento quisesse
tomar-me por juiz de uma obra sua, qualquer que ela fosse.

Fui ao convite, construindo, em caminho,
uma pea imaginaria com o ttulo  Suplcio de uma mulher,  que me
parecia fazer pendant com a linda comdia de Madame Emile de Girardin  Culpa
do marido.

Os convivas-auditores eram os Srs. de
la Guronire, Nestor Roqueplan, Camile Doucet, Henri Didier (deputado), Dr.
Cabarrus, Mesmer (vice-cnsul da Rssia), cavalheiro Nigra, Boitelle, que, tendo
j ouvido a pea uma vez, saiu logo depois do jantar; a Sra. condessa Keller, a
Sra. Mesmer, e a Sra. de Girardin.

Era o pblico em miniatura, formado de
todos os elementos diversos que compem o pblico dos teatros: pessoas da
sociedade, crticos, homens de letras; havia meio de obter um juzo, e em todo
o caso uma impresso. O Sr. Girardin leu o primeiro ato.

No se disse palavra.

A idia era das mais perigosas, para me
servir da frase de um dos seus amigos, e a maneira por que ele a apresentava,
tornava-a mais perigosa ainda. O ato estava mal feito, comeando por onde devia
acabar, e acabando mal. Entretanto, havia uma base para o drama, tomada no
interior da vida conjugal. Era audacioso, verdadeiro, e inadmissvel.

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O Sr. de Girardin leu o segundo ato.

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Depois desta cena (a cena da carta), o
d de peito da idia, o centro da pea, o Sr. de Girardin interrompeu-se e
disse-me:

 Ento?

 Estou  espera, respondi eu.

Com efeito, era a que eu queria v-lo,
nas conseqncias e dedues lgicas desta situao nova, que eu proclamo, com
toda a sinceridade, uma das mais dramticas e das mais interessantes que h em
teatro.

Mas uma situao no  uma idia. Uma
idia tem comeo, meio e fim, exposio, desenvolvimento e concluso. Toda a
gente pode achar uma situao dramtica, mas  preciso prepar-la, faz-la
aceitar, torn-la possvel, dar-lhe sobretudo um desenlace. Um rapaz pede uma
moa em casamento. Do-lha. Casam-se. No momento de retirar-se, dizem-lhe que
ela  sua irm. A est uma situao, e das mais interessantes. Mas saiam dela,
arranjem um desfecho. Aquele que fizer uma boa pea com este ponto de partida
ser o verdadeiro autor da pea, e eu nada reclamarei.

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O Sr. de Girardin leu o terceiro ato,
no aquelle que cita no seu prefcio, mas o que vai no fim desta minha
resposta. Vero o que era ele. No censuro o Sr. de Girardin. No  seu ofcio
escrever comdias. J  muito ter criado uma situao dramtica no meio do seu
trabalho de teorias econmicas, polticas e governamentais.

A leitura durou duas horas e meia, pouco
mais ou menos. Acabada ela, o autor recolheu as opinies. Eu deixei falar os
outros, e no disse palavra. Esperava que entre todos aqueles juzes algum
houvesse assaz corajoso, ou antes, assaz franco, que resumisse a impresso
geral e fizesse compreender a um homem do seu valor  que o talento, o prprio
gnio, no  universal. Foi o que aconteceu, falou-se franco e a pea foi
declarada perigosa, irrepresentvel, impossvel, eptetos estes que saram da
boca de todos, misturadas com aquele acar fino que a gente bem educada traz
sempre nas algibeiras.

Ento o Sr. de Giradin interpelou-me
diretamente, e disse-me: Conto com o senhor para acharmos um desfecho.

Era opinio geral que a pea no tinha
concluso.

 Meu caro amigo, respondi, se eu
achasse um desfecho para a situao no lha daria, como o senhor no me daria,
a soluo da questo romana, se a achasse.

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Procure o senhor, que eu procurarei
tambm. h na sua pea uma cena que se no deve perder...

No dia seguinte comeava eu a entrever a
pea. Fui cedinho  casa do Sr. Girardin, e disse-lhe pouco mais ou menos isto:

 h decididamente alguma coisa no Suplcio
de uma mulher: o assunto  audacioso mas  humano, tem probabilidades de
sucesso. O pblico adora a verdade, mas  preciso sab-la dizer.

 Ento pode-se fazer um drama?

 Pode-se.

 Encarrega-se disso?

 Decerto, sem saber ainda at onde
irei.

 Pois tente. Vou mandar-lhe o
manuscrito; ponha  margem as suas observaes.

No dia seguinte recebi a pea, cujo
desfecho j o Sr. de Girardin modificara segundo o meu primeiro conselho.

Tentei fazer alguns cortes a lpis, e
acrescentar varias notas. Intil. A obra era demasiado confusa, compacta,
densa. Como em Herculano, era impossvel achar a cidade debaixo da lava. Melhor
era construir outra ao p daquela.

No dia seguinte, levei e li ao Sr. de
Girardin o comeo do primeiro ato, tal como foi representado, at  cena entre
Alvarez e Matilde exclusivamente. A sra. de Girardin assistira  leitura.

Aquele trabalho era apenas um conselho
dado a um amigo, por cuja obra me interessava: era a indicao do tom geral,
no era ainda colaborao. Parei diante da ltima pgina. O Sr. de Girardin,
que achava ento um bom comeo, pediu-me que continuasse o trabalho,
oferecendo-me metade dos direitos da obra. Objetei-lhe que,  em conseqncia
dos meus contratos com o Ginsio, eu s podia pr meu nome se a pea fosse
representada neste teatro,  e que,  no tendo colaborado nunca, s o faria no
caso de ter carta branca para a execuo da obra. O Sr. de Girardin
respondeu-me que, estando a pea prometida ao Teatro Francs, s apareceria o
nome dele, e quanto ao trabalho dava-me carta branca, acrescentando esta frase
muito natural na boca de um homem que no tinha, nem o hbito do teatro, nem a
pretenso de ser autor dramtico:  Fiz trs vezes e mal esta pea; faa-a uma
vez e boa.

Deitei mos  obra, e confesso que pus
de parte a verso do Sr. de Girardin, a quem preveni disso. Tornei meu o
assunto. Supus que a idia fosse minha, maneira nica de identificar-me com um
assunto alheio, e no trs semanas, mas oito dias depois desta conveno,
comuniquei-lhe o manuscrito, do qual j ele conhecia alguns fragmentos.

A pouco e pouco tinha-me eu exaltado
como se se tratasse de mim. Desde que entrevi o desfecho possvel, compreendi
logo em que forma devia ser tratado o assunto. Lembrava-me ainda a lio que
recebi com o Amigo das mulheres, pea em que me censuravam excessivos
desenvolvimentos fisiolgicos; eu dizia comigo que decididamente o teatro vive
de interesse, de fatos, de ao, de movimento e de progresso. Fazendo as
minhas reservas acerca do valor intrnseco da minha ltima comdia (vaidade!
nunca nos abandonas!) fiz a mim mesmo a promessa de aproveitar a experincia,
porque eu no sou teimoso, e tenho a opinio daquele que dizia de Voltaire: Il
y a quelqu'un qui a plus d'esprit que Voltaire, c'est tout le monde.

Francamente, (eu apelo para o pblico
que me d razo h quinze dias, sem conhecer os pormenores que lhe estou
expondo hoje), podia apresentar-se melhor ocasio para fazer um novo tentmen?
Havia assunto que pedisse mais conciso, mais rapidez, mais destreza? Devia-se
proceder por outro modo que no fosse o movimento, o fato e as lgrima?

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Li a pea ao Sr. Girardin.

No  mais a minha pea, disse o Sr. de
Girardin, quando acabei de ler.

No sei o que , respondi, mas acho que
deve ser assim. Leia atentamente o manuscrito, faa observaes  margem,
mande-mo e ns refundiremos um com outro, se for preciso; mas eu creio que a
obra deve ficar assim.

Recebi o manuscrito, com duas ou trs
linhas, a que atendi, e algumas mudanas insignificantes, como a palavra  valet
de chambre por domestique.

Tornei a levar a pea.

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O Sr. de Girardin mandou a pea ao
diretor do Teatro Francs, o Sr. Eduardo Thierry, escrevendo-lhe a seguinte a
carta que ficou nos arquivos do teatro:

Meu caro diretor, eis o novo
manuscrito. Dumas est certo do sucesso. Leia e diga-me se  da mesma opinio.

O Sr. Eduardo Thierry respondeu:

Desta vez temos pea e sucesso.

Passava-se isto a 2 ou 3 de dezembro.

O Sr. de Girardin pediu leitura.
Marcou-se o dia 14: mas, de 3 a 14, o Sr. de Girardin, que no estava
convencido de que a ltima verso fosse a melhor, fez entrar nela tudo que pde
tirar ao texto primitivo, reformou, mudou o desfecho, e para concluir, leu ao
comit um drama metade meu metade dele, sem comunicar-me coisa alguma, como
talvez devesse fazer, sendo eu colaborador e amigo.

O drama foi aceito por um voto de
maioria.

Soube ento o que se passara. O Sr.
Girardin no me falou das suas correes. Nada lhe disse. Afinal de contas, era
ele quem devia assinar a pea: a idia era dele, e dele era a responsabilidade.

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O Teatro Frances dispoz-se a ensaiar a
pea. O Sr. Eduardo Thierry, que no tinha achado na pea lida ao comit a
ltima pea lida por ele, pediu-me que assistisse a uma nova leitura com o Sr.
de Gi- rardin, Regnier e ele, leitura com que se estabele- ceria
definitivamente o texto, depois de confrontar os manuscriptos. Levei copia do
meu. O Sr. Ed. Tier- ri lia em voz alta a copia, do teatro, e Regnier
acompanhava a leitura com a minha; eu e o Sr. de Girardin ouviamos. Foi ento
que conheci as emendas. No fiquei ofendido, fiquei espantado.

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De tempos a tempos, aps as observaes
justas do Sr. Thierry ou de Regnier, dava eu a minha opinio ao ponto de vista
geral do teatro, sem querer impor a minha frmula, O Sr. de Girardin
incomodava-se com a discusso. Como tnhamos em vista o interesse dele, como
queramos lealmente que ele no sofresse uma derrota, em terreno que lhe era
desconhecido, tentvamos convenc-lo por todos os argumentos possveis e nos
termos mais delicados, incapazes de ferir um grande amor prprio legitimado por
um grande valor e uma grande situao. Eu cheguei at a dizer isto ao meu
colaborador:

 Quando o Sr. leu a sua primeira pea,
que foi declarada impossvel, se eu lha houvesse pedido, era capaz de dar-ma?

 Decerto.

 Pois bem, se ma desse eu faria o que
fiz. Agora no posso dizer mais: tomo a sua parte, pelo preo que quiser. Fao
representar a pea, e garanto que h de agradar imensamente.

Este ltimo argumento, e o modo com que
Regater, na mesma ocasio, interpretou a cena da carta, to admiravelmente
representada depois, acabaram de convencer o Sr. de Girardin, que declarou ser
intil ler o terceiro ato, e que aceitava decididamente a minha verso.

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Os ensaios, por consentimento do Sr. de
Girardin, deviam ser dirigidos por mim.

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O Sr. de Girardin assistiu sem mim a um
dos primeiros ensaios. Ouviu todo o primeiro ato, mostrou-se satisfeito, e
mandou-me dizer que assistisse aos ensaios o mais assiduamente possvel.

Graas a um trabalho de quatro horas por
dia, os ensaios foram depressa. A pea tomava corpo e alma. A ao
desenvolvia-se rpida, comovente, implacvel. Eu estava encantado pelo
resultado, e ningum pode dizer que tentasse, uma s vez, nem por palavra nem
por atos, suplantar o meu colaborador.

Fui convidar o Sr. de Girardin para ir
ouvir a pea
............................................................................................

Veio dois dias depois. Assentou-se na
platia, entre o sr. Thierry e eu, e a pea desenvolveu-se sem interrupo aos
seus olhos. No fim, perguntou-lhe o Sr. Thierry qual era a opinio dele.
Levantou-se ento o Sr. de Girardin, e disse em alta voz, em pleno teatro, em
face dos artistas espantados, que ouviam pela primeira vez semelhante
linguagem:

 Se eu fosse o nico dono da pea,
retir-la- ia; acho aquilo detestvel!

 Meu caro, respondi eu, com o sangue
frio de que a natureza me dotou, lamento isso, tanto mais quanto eu fiz o que
podia para que a pea no fosse to detestvel como era dantes.

Depois do que, subi ao tablado, deixando
o Sr. de Girardin partir sem dizer uma s palavra aos artistas confusos,
molestados, e principalmente perturbados com aquela repreenso.

Declarei-lhes, e eles o entenderam
assim, que a minha misso estava terminada. Retiveram-me ainda umas duas horas,
pedindo as minhas ltimas indicaes, e eu indiquei tudo o que me parecia til
ao sucesso da pea, sucesso que_ainda uma vez lhes predisse.

Voltei para casa, acreditando ainda, to
ingnuo era, que o Sr. de Girardin me mandaria no dia seguinte alguma palavra
amigvel.

Nada.

Assim, pois, o meu tempo, a minha experincia,
que ele hoje reconhece, a melhor parte de mim mesmo, porque eu tinha
conscincia de ter escrito uma obra interessante, em uma forma nova, pensada,
escolhida, forjada por mim, toda a minha pessoa enfim, posta lealmente,
modestamente, filialmente, ao servio do capricho literrio de um amigo, no,
como o meu adversrio insinua, para ganhar alguns bilhetes de mil francos, que
eu ganharia em maior quantidade com o meu nome do que com o seu, mas para
impedir que um dos homens mais notveis da poca se entregasse, desarmado e
ridculo, em pas estranho, aos golpes e gargalhadas dos numerosos inimigos que
ele tem a fortuna de possuir, nada disso deteve nos lbios frios e desdenhosos
do Sr. de Girardin a palavra detestvel; palavra injusta, como est hoje demonstrado,
e que ele no tinha direito de proferir depois da nossa ltima conferencia, da
nossa ltima leitura, e da sua ltima declarao.

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Mas, se eu nada recebi do Sr. de
Girardin, recebeu o Sr. Thierry uma carta em que ele declarava de antemo que
recusava assinar uma pea que no era sua, que desnaturava a sua idia e que
ele achava m, acresentando que assistira como simples curioso  primeira
representao da nova obra-prima do autor do Demi-Monde.

Teve lugar o ensaio geral; assisti a
ele, no como autor, mas como amigo, fiz elogios aos artistas, no fiz uma s
observao. O Sr. de Girardin tambm assistiu ao ensaio.

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No aceitei os bilhetes a que tinha
direito para a primeira representao. O Sr. de Girardin tomou-os todos,
mandando-me dizer que, se eu quisesse alguns, mandasse-lhos pedir.

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O Sr. de Girardin deu ou cedeu muitos
bilhetes aos seus amigos, o que no se conciliava com o famoso:  detestvel.

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No assisti  primeira representao,
cujo successo foi imenso.

Alguns dias depois soube, pelos jornais,
que o Sr. de Girardin vendera ao Sr. Michel Levi; sem consultar-me nem
prevenir-me, o manuscrito do Suplcio de uma mulher, isto , uma
propriedade comum; e soube mais que, sem informar-me, fizera presente a Mlle.
Favart do preo integral da venda. No me mandaram provas da impresso, que s
eu podia corrigir, pois s eu conhecia o texto.

Mandei intimar o Sr. Levi por via legal,
proibindo-lhe a publicao de uma obra de que o Sr. de Girardin no podia
dispor s.

O Sr. Levi respondeu  intimao,
recusando,..................................................................................................

e depois veio fazer-me uma visita por
dia, oferecendo-me, da parte do Sr. de Girardin, metade do preo da venda.

Devolvi ao Sr. de Girardin os seus, ou
meus, dois mil e quinhentos francos, e esperei o prefcio, ltima prova dessa
liberdade ilimitada que ele reivindica para si, no admitindo a mais elementar
equidade para os outros.

Aqui entra Dumas na apreciao do
prefcio de Emile de Girardin, e publica o primeiro manuscrito da pea, sobre o
qual fez ele o drama que se representou no Teatro Francs.

Eis como termina a brochura de Dumas
Filho:

... No falseei os seus caracteres,
seno que os aperfeioei,  para no dizer que os criei,  porquanto a primeira
condio de um carter,  a lgica, e as suas personagens desmentem-se a cada
instante, como podem ver os que lerem a sua verdadeira pea. Enfim, quem
escolhe uma idia deve no perd-la de vista um s momento,  deve fazer com
que todas as personagens, todas as cenas, todas as palavras concorram para a
expresso, deduo e demonstrao dessa idia, sob qualquer forma que se
apresente, drama ou comdia. Lembre-se desta lei invarivel do teatro, Sr. de
Girardin, e no se afaste dela quando escrever as Duas irms.  o ltimo
conselho dramtico que lhe dou, mas no  o pior...

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Se eu escrevo como um telgrafo ou como
um melodrama; se o pblico erra ou no, aplaudindo as minhas verdades
fictcias; se o Sr. de Girardin continua a ver em mim um rapazola, porque me
viu nascer; se eu sou um tradutor (aceito a palavra) porque a sua lngua
dramtica prefere ser pateada a ser aplaudida, fantasia que pde realizar
facilmente quando no tiver colaborador; se ele deixou representar a pea para
me no causar um prejuzo pecunirio, ou por no poder ser de outro modo;
importa demonstrar a incontestabilidade dos fatos, e a franqueza e limpeza do
meu procedimento.

Procurar a verdade,  a divisa do Sr. de
Girardin.

Diz-lo,  a minha.

Uma vale outra.

A simples comparao das alegaes de
Girardin com a narrao de Dumas Filho, basta para conhecer de que lado est a
verdade.

Aguardamos ocasio oportuna para mostrar
as diferenas essenciais entre as duas peas, e apreciar ao mesmo tempo a pea
representada e to calorosamente aplaudida.

* * *

Crtica teatral

Suplcio de uma mulher.  (Drama em 3 atos por Emile de
Girardin e Dumas Filho).

Subiu finalmente  cena, no teatro
Ginsio, o drama de Emile de Girardin e Dumas Filho, Suplicio de uma mulher.
Depois de percorrer quase todos os principais teatros da Europa, chegou ele s
nossas terras, onde, a julgar pelos aplausos que j recebeu, parece que
continuar a mesma carreira gloriosa, que at hoje tem percorrido. A que deve
ele esta carreira gloriosa, e por que motivo revolve to profundamente os
espritos? A resposta est na forma e na idia do drama;  porque, sob uma
forma interessante, rpida, precisa, agita ele, mais ousadamente que nenhum
outro, uma terrvel questo de costumes, concluindo por uma lio severa,
tremenda, implacvel.  um drama que tem a grande vantagem de no discutir, nem
dissertar: todo ele  ao, desde que comea at que termina, ao enrgica e
apaixonada, ao que arrasta, que comove, e que satisfaz a alma, graas a uma
soluo judiciosa, tirada das entranhas do assunto, para salvar a um tempo a
dignidade humana e a santidade das leis Moraes.

Toda a gente ficou impressionada, diz um
crtico parisiense, com a deduo lgica das cenas, com a audcia das
situaes, com o vigor do estudo. As frases so breves e precisas; cada palavra
fulmina como uma cpsula inteligente.  uma espcie de artigo em trs atos
contra o adultrio, corrigida as provas por um homem entendido em matria de
dilogo.

Tal  o drama que o pblico do Ginsio
aplaude com fervor e entusiasmo. Abstenho-me de narrar o enredo, referindo-me
apenas quilo que tiver relao com as intenes morais da pea, e a este
respeito direi em duas palavras o que ela me parece.

O Suplcio de uma mulher trata da
questo do adultrio com os traos mais vigorosos e novos; os autores no
recuaram diante de nenhuma dificuldade, nem mesmo diante do fruto do amor
criminoso; e essa situao, se impressiona pela ousadia, corrige pela energia
da verdade; no meio de todos os seus protestos de amor, o erro de Matilde no
merece simpatia alguma, e quando no ltimo ato, o marido assume a
inflexibilidade de juiz, e lavra aquela sentena to grandiosa e to profunda,
as simpatias do espectador ficam em casa com Dumont, ao passo que Matilde e
Alvarez levam apenas a sua condenao. Ningum se revolta contra a sentena de
Dumont; chegando em frente do terrvel problema, posto nos dois primeiros atos,
o espectador anseia, palpita, interroga, em busca de uma soluo difcil para
ele, e desde que ela aparece na boca do marido ultrajado, h um movimento
ntimo, de aplauso e de satisfao, por aquela vitria da lei moral e da pureza
dos costumes.

Ora, se a concluso nos satisfaz, e se a
situao no nos seduz, onde est o escndalo da pea? Uma obra  moral 
lembra-me ter lido em Mme. de Stal,  se a impresso que se recebe  favorvel
ao aperfeioamento da alma humana... A moralidade de uma obra consiste nos
sentimentos que ela inspira. Ningum dir que os sentimentos que nos inspira o Suplcio
de uma mulher sejam simpticos  perverso dos costumes; e se as nossas
lgrimas acompanham Dumont,  que esto do lado do dever.

De todos os caracteres da pea, o mais
perfeito e o mais completo  Dumont,  confiante, dedicado, amante, nos dias da
paz domstica, nada perde da sua nobreza na hora do infortnio conjugal. Quando
Matilde lhe entrega a carta de Alvarez, o seu corao prorrompe a linguagem da
sua indignao:  o primeiro castigo da culpada; mas depois, quando ele volta
sobre si mesmo, e reflete na enormidade da situao em que se acha, a idia que
o domina  a de salvar a sua honra e o futuro da menina, que no pode ser
solidria no crime de Matilde e de Alvarez. Daqui vem naturalmente a concluso
da pea, concluso nova, e profundamente moral.

Alvarez  igualmente um carter humano,
at na paixo que o domina, e que, se no serve  conscincia dos espectadores,
serve  sua prpria, e  aos olhos dele uma justificao. Os autores no
pretendem imp-lo  simpatia do espectador, como um tipo do dever, nem este o
aceita; ao contrrio, quando Dumont lhe pergunta no 3 ato,  se ele est no
caso de recusar alguma infmia,  j o espectador tem feito a mesma pergunta;
mas, no desvio de sua paixo criminosa,  e est nisso a lio do exemplo, 
Alvarez julga a proposta de Dumont mais indigna que a sua traio.

De todos os caracteres,  Matilde  o
que me parece mais fraco; se fosse o amor que a impelisse ao erro,
conservava-se ela dentro das condies humanas; mas o erro por um motivo de
gratido pelo favor prestado ao marido, no me parece inteiramente filho da
lgica moral dos sentimentos. Isto, porm, no impede que o remorso lhe lacere
a alma; o belo monologo do 2 ato  na realidade a expresso fiel das suas
dores ntimas, com a diferena de que, no meio da runa da sua vida, aquelas
lamentaes, se conseguem despertar a nossa piedade, no arrancam a nossa
absolvio.

Pondo de parte o papel da menina Joana,
que, como diz Alvarez, ainda no tem carter determinado, resta-nos a Sra.
Larcey, criao cmica de um feliz acabado, copiada do natural, e habilmente
introduzida na pea.

Tais so as personagens do Suplcio
de uma mulher.

Cheio de cenas novas e lances originais,
entre os quais a entrega da carta no segundo ato, que interessa ao ltimo ponto
por sua altura dramtica, o Suplcio de uma mulher est destinado a
colher na cena brasileira os aplausos e as ovaes de que tem sido objeto nos
teatros da Europa.

 fcil predizer-se esta boa sorte ao Suplcio
de uma mulher. No h muitos dramas que consigam, como este, prender to
poderosamente a ateno e revolver to profundamente a alma. A aceitao por
parte do pblico ser tambm uma prova em favor da sociedade, que encontra nele
a defesa dos deveres morais e da santidade do casamento.

Insisto neste ponto, porque  ele to
evidente e to positivo no Suplcio de uma mulher, que as apreciaes
contrrias no se podem sustentar. Que essas apreciaes se produzam, contra a
evidncia dos fatos, no  isso uma desconsolao para os autores. A histria
literria de todos os tempos encerra mais de um exemplo desta luta, de que saem
vitoriosas as obras verdadeiramente durveis.

Seja-me lcito citar um gnio, o grande
Molire, que caminha, ao par de Shakespeare, na vanguarda dos poetas
dramticos, e cit-lo, na sua obra mais perfeita, Misantropo. H nada
mais eternamente belo, mais eternamente moral? E contudo no achou J. J.
Rousseau, na celebre carta a d'Alembert, que Molire tinha ridicularizada a
virtude? Mercier no escreveu tambm que todas as peas do grande poeta eram
apologias do vcio?

Nos nossos dias, quando o adorvel
talento de Madame Sand deu ao mundo literrio essa longa srie de livros que
ho de desafiar os sculos e levar  mais remota posteridade o nome da sua
prodigiosa criadora, de todos os lados da literatura surgiram crticas acerbas
contra ela, e dizia-se desassombradamente, que essas obras eram libelos contra
o casamento e a moral.

Que vimos ento? Vimos o mais ilustre
crtico da escola clssica, Gustave Planche, apreciar, com aquele alto critrio
que sempre o distinguiu, as obras to incriminadas, mostrando aos olhos do
mundo literrio as grandes belezas da autora de Indiana, e servindo deste modo
 verdadeira causa da arte.

Mesmo sem assistncia de um juiz to
competente, o Suplcio de uma mulher pode esperar igual fortuna.  esta
a minha convico, e para os meus amigos,  intil declar-la; eles sabem que
eu no me faria tradutor de uma obra de cuja deformidade moral e potica
estivesse convencido.

Os indiferentes podero julgar o
contrrio; e talvez os induza a isso uma frase que escapou ontem ao colega do Jornal
do Comrcio e, quando se refere  questo literria que houve em Paris, por
ocasio da representao da pea. Nem esse escndalo, diz o colega, se quis
perder aqui, e antes da representao do drama a imprensa narrou largamente a
histria da origem. Os leitores do Diario sabem que, antes da
representao do Suplcio de uma mulher foi narrado o referido escndalo
nestas colunas, em artigo assinado por mim.

Vou ajudar a perspiccia do Jornal do
Comrcio.

A narrao do escndalo tinha dois
motivos: o primeiro era explicar as razes pelas quais dei  pea os nomes dos
dois autores, quando o original francs no os mencionava; o segundo era dar
conhecimento aos leitores de um incidente curioso, e que tanto excitara a
curiosidade pblica da Europa.  a isto que o Jornal do Comrcio chama
explorao do escndalo?

Mas eu no posso reconhecer na frase do Jornal
do Comrcio mais do que uma irreflexo, mui pouco prpria da idade madura,
no devendo admitir que ele pudesse ter nenhuma inteno ofensiva contra mim; e
se tal inteno existisse,  intil dizer que a mencionada frase, perdendo aos
meus olhos o seu diminutssimo valor, s teria como resposta o silncio do
desdm.
